quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Que droga viu!




O ano letivo de 2011 ainda nem acabou e já posso dizer que foi catastrófico em um sentido muito mais do que em outros. Refiro-me aqui ao uso de entorpecentes, tanto no interior quanto no exterior da unidade escolar na qual me insiro. É bem verdade que hoje a situação já se encontra bem melhor quanto ao consumo de substâncias alucinógenas no interior da escola. Entretanto, o problema são as perdas que tivemos ao longo de quase um ano: uma sala inteira foi praticamente devastada pela ação dos corruptores e vários bons alunos acabaram entrando em uma vida que possivelmente jamais conseguirão sair. A tradicional maconha foi rapidamente substituída pela cocaína, que por estes lados virou moda. Com isto, o que se pode ver por aqui é um horrendo espetáculo. 


Percebi que esta vulnerabilidade dos alunos ocorre principalmente em função da existência de famílias desestruturadas. Não me refiro aqui a uma família que não atende a organização tradicional, tal como concebemos idealmente, mas às estruturas familiares onde aquele que detém a tutela da criança e do adolescente também é usuário de substâncias ilícitas ou simplesmente prefere se ocupar com a novela das nove, ao invés de se atentar à vida escolar do seu tutelado. A ausência da comunidade escolar nos fazeres dos educandos é notável, pois as reuniões de pais têm sido dias nos quais apenas os responsáveis pelos “bons alunos” comparecem. Os alunos com baixo rendimento e com problemas de comportamento simplesmente aparentam não ter qualquer pessoa da família que por eles se responsabilizem. Para ilustrar estes dramas, utilizo aqui o exemplo do aluno cujo pai foi convocado em função da indisciplina e baixo rendimento do seu filho. O mencionado senhor, que referiu-se à sua ex-esposa como “aquela vagabunda”, disse que entregou o seu filho para a sua mãe, pessoa para a qual ele paga mensalmente a pensão. Assim, o aluno que é criado pela avó, quando interrogado por mim a respeito dos seus pais, se reportou aos dois como “aqueles malditos que nunca me deram carinho e atenção”. Completou, ainda, “é por isso que eu faço esta porra! Faço mesmo para ferrá-los”. O pai do referido educando foi alertado sobre a questão do uso de entorpecentes por parte do seu filho. Sabem o que ele me disse? Pronunciou perplexo comigo as seguintes palavras “Professor o senhor quer que eu faça o que? Todo mês eu pago pensão!” Consigo perceber que este homem acredita estar fazendo o melhor - como Hitler que acreditava piamente caminhar pelo caminho da verdade e da justiça. 


O pior de tudo é que a escola não criou mecanismos de controle para amenizar tal situação. Em parte, isto ocorre em função do desgaste funcional das pessoas que aguardam a aposentadoria e pela falta de funcionários. Da mesma forma, a polícia militar ignora completamente o assunto. Os membros da corporação conhecem os horários e as pessoas que praticam estas ilicitudes, mas aparentemente propositalmente quando chegam no entorno da escola acendem os faróis das viaturas e emitem um sinal sonoro. Parece um aviso do tipo “escondam isto para que eu não tenha nada para fazer”. 
 Muito além das diretrizes dos documentos oficiais, expedidos pelo Ministério da Educação, secretarias e câmaras, e das utopias dos belos dizeres dos intelectuais da pedagogia, que estão muitos anos luz distantes do que ocorre nas escolas, pois cercados pelo luxo dos seus escritórios falam da vida, mas efetivamente desconhecem o que é viver, temos realidades escolares que dependem muito mais de ações práticas do que de devaneios de especialistas engravatados.



Flashaml
26/10/2011