O ano letivo de 2011
ainda nem acabou e já posso dizer que foi catastrófico em um
sentido muito mais do que em outros. Refiro-me aqui ao uso de
entorpecentes, tanto no interior quanto no exterior da unidade
escolar na qual me insiro. É bem verdade que hoje a situação já
se encontra bem melhor quanto ao consumo de substâncias alucinógenas
no interior da escola. Entretanto, o problema são as perdas que
tivemos ao longo de quase um ano: uma sala inteira foi praticamente
devastada pela ação dos corruptores e vários bons alunos acabaram
entrando em uma vida que possivelmente jamais conseguirão sair. A
tradicional maconha foi rapidamente substituída pela cocaína, que
por estes lados virou moda. Com isto, o que se pode ver por aqui é
um horrendo espetáculo.
Percebi que esta
vulnerabilidade dos alunos ocorre principalmente em função da
existência de famílias desestruturadas. Não me refiro aqui a uma
família que não atende a organização tradicional, tal como
concebemos idealmente, mas às estruturas familiares onde aquele que
detém a tutela da criança e do adolescente também é usuário de
substâncias ilícitas ou simplesmente prefere se ocupar com a novela
das nove, ao invés de se atentar à vida escolar do seu tutelado. A
ausência da comunidade escolar nos fazeres dos educandos é notável,
pois as reuniões de pais têm sido dias nos quais apenas os
responsáveis pelos “bons alunos” comparecem. Os alunos com baixo
rendimento e com problemas de comportamento simplesmente aparentam
não ter qualquer pessoa da família que por eles se responsabilizem.
Para ilustrar estes dramas, utilizo aqui o exemplo do aluno cujo pai
foi convocado em função da indisciplina e baixo rendimento do seu
filho. O mencionado senhor, que referiu-se à sua ex-esposa como
“aquela vagabunda”, disse que entregou o seu filho para a sua
mãe, pessoa para a qual ele paga mensalmente a pensão. Assim, o
aluno que é criado pela avó, quando interrogado por mim a respeito
dos seus pais, se reportou aos dois como “aqueles malditos que
nunca me deram carinho e atenção”. Completou, ainda, “é por
isso que eu faço esta porra! Faço mesmo para ferrá-los”. O pai
do referido educando foi alertado sobre a questão do uso de
entorpecentes por parte do seu filho. Sabem o que ele me disse?
Pronunciou perplexo comigo as seguintes palavras “Professor o
senhor quer que eu faça o que? Todo mês eu pago pensão!” Consigo
perceber que este homem acredita estar fazendo o melhor - como Hitler
que acreditava piamente caminhar pelo caminho da verdade e da
justiça.
O pior de tudo é que
a escola não criou mecanismos de controle para amenizar tal
situação. Em parte, isto ocorre em função do desgaste funcional
das pessoas que aguardam a aposentadoria e pela falta de
funcionários. Da mesma forma, a polícia militar ignora
completamente o assunto. Os membros da corporação conhecem os
horários e as pessoas que praticam estas ilicitudes, mas
aparentemente propositalmente quando chegam no entorno da escola
acendem os faróis das viaturas e emitem um sinal sonoro. Parece um
aviso do tipo “escondam isto para que eu não tenha nada para
fazer”.
Muito além das
diretrizes dos documentos oficiais, expedidos pelo Ministério da
Educação, secretarias e câmaras, e das utopias dos belos dizeres
dos intelectuais da pedagogia, que estão muitos anos luz distantes
do que ocorre nas escolas, pois cercados pelo luxo dos seus
escritórios falam da vida, mas efetivamente desconhecem o que é
viver, temos realidades escolares que dependem muito mais de ações
práticas do que de devaneios de especialistas engravatados.
Flashaml
26/10/2011
